A Internet matou o Cyberpunk

(It’s alive! It’s alive!)

O óbvio em primeiro lugar: nunca foi o papel da Ficção Científica falar sobre o futuro.

FC fala sobre o presente. Quase um subgênero da ficcção fantástica, é uma extrapolação do presente que visa trazer para a superfície uma tendência ou problema. Júlio Verne viu a revolução industrial e escreveu uma renca de livros que diziam “olha só, nos próximos 100 anos a gente vai fazer coisas que até Deus duvida”. Orwell, Huxley e seus comparsas de Distopias presenciaram o nascimento o mundo neofacista pós WW2 e relataram o que viam, o rumo que a coisa toda estava tomando. Asimov foi um dos primeiro a levantar a mão e dizer “ei, será que não é melhor a gente pensar um pouquinho antes de fazermos lambança com essa ciência toda?”

E William Gibson & Bruce Sterling, que viveram o movimento punk e foram visionários o suficiente para pegar aquilo que Orwell perdeu em 1984: que a tecnologia de mídias – que Orwell acreditava que se tornarim a espinha dorsal de sistemas opressivos de controle – avançavam em ritmo muito acelerado para serem bem utilizados por governos, engessados e tradicionalistas.  E que as corporações eram o novo establishment, e que estas sim alcançariam o controle da população através do controle da mídia.

Aí veio a Internet e matou o Cyberpunk.

O Cyberpunk “falhou” (entre aspas, pois falhou em sentido figurado, como eu disse, nunca foi o objetivo da FC predizer o futuro) em dois pontos: primeiro, as pessoas estão mais interessadas em mandar mensagens de 140 caracteres por uma telinha minúscula de telefone do que em andar em complexos mundos interativos a la Second Life. Segundo, as corporações foram completamente atropeladas na corrida armamentista midiática pelas pessoas mundanas.

Porque as pessoas que criaram a Internet e as pessoas que criaram o Cyberpunk tinham uma coisa em comum: o punk rock. Trazer o poder para as massas é um dos cânones do punk, e foi seguindo essa filosofia que as pessoas que colocaram a WWW no ar sabotaram sutilmente o projeto e fizeram com que o produto final fosse – para efeitos práticos – avesso ao controle centralizador. Ninguém nunca vai ter 100% de controle sobre Internet.

(Gibson de novo – Na época do lançamento do Reconhecimento de Padrões, ele veio a público dizer que estava abandonado a FC porque todas as coisas sobre as quais ele escrevia no cyberpunk haviam se materializado. E Reconhecimento de Padrões é, de muito longe, o melhor livro dele que eu já li, e é justamente um livro sobre a derrota das corporações no campo midiático. Cyberpunk jogando a toalha, ali, ao vivo e a cores.)

E na Europa a pena para alguns predadores sexuais e pirateiros de música agora é… ter a internet cortada. Quanto tempo até que a privação do contato com o mundo online vire uma pena tão severa quanto a privação do contato com o mundo material? É o tipo de questão que merece ser respondida pela FC.

Mas pelo menos até onde minha vista alcança, a sciente fiction deixou de ser social fiction. O que eu vejo hoje em produção são as Space Operas (mesmo ficando claro que nenhum de nós vai ver outro ser humano pisar em qualquer lugar mais distante que a lua em nosso tempo de vida) e um ou outro refugo de temática antiga, geralmente com zumbis.

Cadê a ficção científica de cunho mais… hm, social? Tirando Cory Doctorow, que anda escrevendo romances sobre garotos usando tecnologias de comunicação digital como ferramenta de mudança social (romances que ainda não li para formar opinião), não vejo quase ninguém se perguntando como os avanços de hoje vão afetar a sociedade de amanhã.

Será que avançamos em velocidade tão alucinante que os escritores, por medo de serem ultrapassados pela realidade nos 1-2 anos necessários para se escrever um livro, preferem se refugiar no futuro distante ou em temas de menos relevância, ou estamos vivendo um momento de transição, onde a geração anterior (a minha) é simplesmente incapaz de compreender o novo contexto digital/social em sua plenitude, e ainda vamos esperar uns 5-10 anos para uma nova leva de Gibsons e Sterlings? Childrens of Doctorow?

Aliás, aceita-se sugestões de boa FC recente, especialmente as que me provem errado.

Uma resposta para A Internet matou o Cyberpunk

  1. Rick disse:

    Como sempre, belo texto!

    Acredito que dois fatores levaram a isso, a velocidade com a qual as tecnologias se desenvolvem, como vc descreveu no texto. E acho que a questão da tv/cinema foi importante também. Levando pra lá a FC e tornando-a um tanto quanto pasteurizada, retirando muitos dos conflitos e das questões que se tinha na literatura.

    Se isso vai retroceder ou mudar? Bem… aí é exercício de futorologia, e como dissemos, a FC acabou.rs

    Abraço

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