Rupert Murdoch vs Realidade, round CDLXXVII

Rupert Murdoch não é um idiota. Ele é dono de um dos maiores conglomerados de mídia do planeta, que inclui centenas de jornais ao redor do planeta e a Fox. É por essas e outras que, quando ele fala, as pessoas escutam.

Recentemente, ele declarou por aí que todos os seus empreendimentos de mídia vão começar a cobrar pelo conteúdo. Indo na contramão da tecnologia, Murdoch espera que o simples peso do seu império tenha inércia o suficiente para desviar os rumos da indústria de mídia. Se ele vai conseguir ou não, é discutível. Mas eu apostaria meu dinheiro no “não”.

Só que não me interessa (agora) os motivos pelo qual ele provavelmente vai dar com os burros n’água. É interessante pensar o PORQUÊ da celeuma de Murdoch com o modelo da Internet.

Para começar, é bastante óbvio que ele não está nem aí para a qualidade do jornalismo, o que ele cita como sua fonte principal de preocupações. O canal de telejornalismo que é símbolo do império da News Corp ganhou o apelido carinhoso de Faux News. As maracutaias e tendenciosismos dos veículos da News Corp são lendários. Para Murdoch, jornalismo de qualidade é aquele que concorda com as suas opiniões, e qualquer zé ruela com um diploma pode fazer o serviço.

Não tão óbvio assim, também podemos dizer que o dinheiro também não é problema. A News Corp levou um baita tombo com a crise, mas até aí, todo mundo levou. O dinheiro é a desculpa, e não a causa, da declaração de guerra contra a interwebs. Fazer dinheiro na internet tem um modelo bem diferente do que fazer dinheiro no impresso, mas a News Corp tem recursos e talentos o suficiente para sobreviver financeiramente à virada. Não será bonito, mas é mais prático do que bater de frente com o mundo real.

A questão é que o império de Murdoch é primariamente uma alavanca política, e os novos modelos de comunicação estão minando os poderes desta alavanca. Da mesma maneira que a impressora de Gutenberg minou as bases do poder monárquico-religioso para facilitar o caminho da democracia moderna, que sempre contou com a liberdade de imprensa como um de seus pilares, da mesma forma a Internet ameaça a estrutura política que temos hoje.

Mais informação circulando significa – teoricamente – mais pessoas sabendo das coisas. Pessoas que sabem das coisas costumam ficar inquietas e fazerem muitas perguntas. Mas não é esse o problema. Murdoch e sua trupe não temem um novo inimigo. Eles já se digladiaram com vários inimigos formidáveis ao longo dos anos.

O problema é ter um inimigo com a qual não se pode negociar.  O inimigo que não se conhece, que não se compra, que não se convida para um almoço para resolver as diferenças. Um inimigo que não tem rosto, que não tem objetivo, que vai destruir alegremente qualquer forma de autoridade que aparecer pela frente. Eis a face do futuro que Murdoch tanto teme:

murdoch dooooom

O que Murdoch realmente teme são os anônimos. Porque ele sabe que sua pessoa e seu império estão muito, muito próximos do topo da lista de alvos da coletividade descentralizada de adolescentes superconectados, junto com a Cientologia ou a Igreja Católica.

Face a face com o caos e a loucura, Murdoch retraiu-se em seu mundinho, onde ele tem o controle, a verdade e a razão. O mundinho onde ele pode se fechar e se proteger das agruras do mundo com um login e uma senha oferecidos a preço de ocasião. O problema, meu caro Rupert, é que você não está jogando o problema atrás da grades – você está sendo afastado da sociedade, que continuará evoluindo a passos largos enquanto você brinca de Cidadão Kane.

Tenha medo. Tenha muito medo.

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Ah sim: Acabou de sair no Brasil o livro Free – O Futuro dos Preços, do Chris Anderson. Eu comprei, mas ainda não li. Em breve, comentários.

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