O Futuro do Jornalismo, Director’s Cut

Se a civilização fosse uma pessoa, Adam Smith seria Sigmund Freud.

Seu nobre jornalista

Tudo – TUDO – na nossa sociedade é definido não pelo que temos, mas pelo que não temos. Os economistas chamam isso de Lei da Escassez: temos infinitos desejos humanos para um número finito de recursos, então criamos esse treco chamado civilização, que é uma forma de organizar as coisas onde basicamente definimos as pessoas de acordo com qual o parco recurso ela foi responsabilizada por administrar – da sua própria força de trabalho até preciosos recursos naturais.

Chamamos isso de “profissões”. Um profissional é uma pessoa responsabilizada por administrar um recurso X de modo a gerar a maior riqueza (riqueza, não dinheiro) possível.

Pegue a informação, por exemplo. Desde que inventou a escrita, o homem já sacou que a habilidade de gerar, acumular e transmitir informação é um recurso essencial para o progresso e para a sobrevivência. É um recurso importante, portanto precisamos de uma classe especial de pessoas responsável por administrar o dito cujo.

Os primeiros administradores de informação foram os escribas da antiguidade, que além do administrativo, também cuidavam das funções religiosas (e na época, magia e linguagem eram praticamente a mesma coisa). É a classe que  depois se transformou nos monges copistas do ocidente. Naqueles tempos bicudos, a quantidade de recursos necessária para gerar, acumular e transmitir informação era muito grande, então limitavam-se os best-sellers a pouco mais do que a palavra final da sua divindade favorita. Aí veio Gutenberg e criou um método mais fácil de gerar, acumular e transmitir informação, o que por sua vez causou um salto tremendo nas artes, na ciência e na sociedade.

Não antes, é claro, da igreja subir nas tamancas.

Em 1492, Johannes Trithemius,  Abade de Sponheim, publicou um ensaio chamado De Laude Scriptorum (na tradução livre, “Ode aos Copistas”), onde explicava como a tradição copista, por tornar o monge mais próximo da palavra de Deus e a Bíblia um livro produzido a custa de sofrimento e devoção, não deveria ser abandonada por conta de uma simples máquina, por mais eficiente que esta fosse. J. G. Heinzemann, outro homem pio e pseudocientista, publicou 300 anos depois um manifesto onde listava alguns dos malefícios causados pelo hábito da leitura: “…suscetibilidade a resfriados, dores de cabeça, enfraquecimento dos olhos, ondas de calor, gota, artrite, hemorróida, asma, apoplexia, doença pulmonar, indigestão, obstipação intestinal, distúrbio nervoso, enxaqueca, epilepsia, hipocondria, e melancolia…”. Ambos, é claro, tinham uma causa muito importante a defender, e não hesitaram em usar o meio impresso de Gutemberg para garantir que sua mensagem chegasse a todos os cantos da cristandade e sobrevivessem até os dias de hoje – com a ironia e tudo.

Mas para o azar da igreja, não se pode combater o progresso, e a impressora de Gutenberg prevaleceu. Com ela, ficou um pouquinho mais fácil publicar coisas, mas não fácil o suficiente para que a gente pudesse deixar de ter uma classe de pessoas responsável por gerenciar os recursos. Mais do que isso, entramos em um processo muito amplo de feedback positivo: como agora conseguíamos gerar, acumular e transmitir informação mais rapidamente, também tínhamos mais informação para gerar, acumular e transmitir, o que se traduz em progresso – científico, social, o que seja. Então, quanto mais coisas imprimíamos, mais coisas tínhamos para imprimir, e o problema da escassez não acabou – ele foi multiplicado.  E é aí que entra a figura do publisher e, em sua instância final, do jornalista.

O raciocínio era assim: “tem um monte de coisas acontecendo e muitas pessoas iriam se beneficiar ao saber de algumas delas, mas eu tenho apenas um número limitado de páginas por dia/semana/mês. Então, como eu devo alocar os recursos de forma a gerar maior produtividade para o maior número de pessoas?”

Isso é a Lei da Escassez. Isso é gerenciamento de recursos. A categoria especial de pessoas que gerenciava este recurso finito de modo a atender demandas infinitas recebia o nome de jornalista. E tudo estava bem, até Tim Bernes-Lee deixar Gutenberg comendo poeira.

Nesse parágrafo, vou tentar resumir da maneira mais simples possível: Todas as pressões econômicas que levaram à criação da profissão “jornalista” em primeiro lugar foram ABOLIDAS pela web. Não existe mais recurso para gerenciar. O custo de gerar, acumular e transmitir uma nova informação é virtualmente ZERO. Não existe mais escassez. Game Over.

Mudamos de um paradigma onde era necessário decidir o que vamos publicar para um em que só precisamos decidir o que vamos ler. Podemos publicar TUDO, da mais bizarra foto no orkut até os mais interessantes avanços científicos. Antes, era filtre primeiro, publique depois. Hoje é publique primeiro, filtre depois. E nem mesmo essa filtragem necessita do auxílio humano direto: podemos simplesmente juntar tudo no mesmo saco e deixar Deus separar os justos.

Estamos, é claro, no meio da transição, mas o modelo funciona. Sabemos que o modelo funciona. Quem noticiou a morte do Jacko, provavelmente o furo de imprensa do ano, foi um advogado com um blog. E experimentem procurar Fora Sarney no Google.

O jornalista perde, assim, uma grande parte de sua razão de ser. E digo isso sem juízo de valor. Ninguém nega a imprenscindível contribuição da imprensa tradicional na manutenção da democracia ou no auxílio ao progresso, da mesma maneira que ninguém nega a importância de copistas que sacrificaram vidas inteiras para garantir que os livros da antiguidade sobrevivessem até hoje. Nós simplesmente encontramos uma maneira melhor de fazer coisas. Poucas pessoas – além de reacionários e ditadores, e talvez dirigentes de sindicatos – considerariam liberdade da informação como uma coisa eminentemente ruim.

E aí vem o governo e fala que jornalista não precisa de diploma, e a classe age como se houvessem soado as trombetas do apocalipse. Muito mal informados para uma classe que se diz rigorosamente preparada para entender o mundo (mais ironia: se você olhar alguns dos motivos alegados por estudantes e jornalistas para a exigência do diploma, eles são curiosamente parecidos com os que a igreja usou para defender a tradição copista da cruel máquina do progresso), mas vamos lá: as trombetas já soaram, o mundo acabou, o tribunal do Juízo Final está vazio e as faxineiras já estão colocando as cadeiras para cima. E essas coisas todas nada tem a ver com a questão do diploma.

A questão não é “precisamos de jornalistas com diplomas?”, e sim “precisamos de jornalistas?”.

Se não existem limites físicos para a quantidade de informação que podemos publicar, e se mecanismos automatizados são extremamente eficientes para separar o que vale a pena ser lido do que não vale, e se estes mesmos mecanismos ficam mais inteligentes na medida que mais pessoas realizam suas pesquisas, então não precisamos de ninguém nem para gerar (a distinção entre gerador de conteúdo e consumidor de conteúdo começa a se desintegrar, e amadores superespecializados nos mais diversos assuntos alegremente compartilham seus conhecimentos), nem para acumular (um banco de dados mundial, descentralizado e desregulado mantém todo o conhecimento acumulado do mundo em um só lugar) e nem transmitir (acesso ao banco de dados não só é universal, mas toda a informação é catalogada e pesquisável em frações de segundos), então precisamos do jornalista para…?

Não que a mídia impressa vá acabar. Jornais e revistas ainda estarão aí por um bom tempo, mas a função social que estas mídias exercem vai mudar. E eu não sei se “jornalismo” é o termo adequado para o que está chegando.

A função do jornalista – ou de seu herdeiro espiritual – vai ser um pouco diferente. Precisaremos sim, de pessoas que conheçam a fundo a natureza da informação e saibam fazer novas conexões entre fontes dispersas e extrair sentido do caos dominante. É um pouquinho do jornalismo atual, mas é muito de arquitetura da informação e de uma verve literária aguda.

E nesse cenário todo, a discussão do diploma é fútil. Pois nenhuma faculdade de jornalismo hoje no Brasil prepara seus estudantes para este novo desafio. Sejamos francos: a maioria mal consegue prepará-los para os desafios anteriores, que nem existem mais. Não precisamos de gente que nos traga informação. Precisamos de gente que nos traga sabedoria. Isso, nenhuma faculdade ensina.

16 respostas para O Futuro do Jornalismo, Director’s Cut

  1. Gastão Muri disse:

    gostei do teu texto. Boas idéias.

  2. Eduardo Bulhões disse:

    Realmente… seus argumentos me convenceram… a questão não é mesmo o “diploma” do jornalista, mas a própria função e utilidade deste na sociedade atual…

  3. Saoki disse:

    Parabéns pelo texto. Conseguiu colocar a questão com clareza e exatidão que são raras em discussões brasileiras sobre a morte da imprensa.

    Agora, com licença, vou twitar este link.🙂

  4. Ricardo Araripe disse:

    Mais um texto muito bom! Não só recheado de boas idéias, mas todas apresentadas com boas fontes e tudo mais! Gostei mesmo.

  5. Barbara disse:

    Ou seja: nosso trabalho agora eh tirar musica da cacofonia. Faz sentido

  6. Danilo Valeta disse:

    Barbara, você matou a charada.🙂

    Aos demais, obrigado pelos comentários.

  7. Rafael Monteiro disse:

    Nunca tinha visto a questão por esse lado, achava que o interesse era apenas uma questão de preço da mão-de-obra. Na verdade o buraco é bem mais embaixo. O capitalismo realmente é punk…

  8. Marcelo V. disse:

    A nova campanha do Estadão já está batendo nessa tecla (que nem é tão nova assim, até porque é bem óbvia). Essa histeria por causa do diploma me pareceu mais justificada somente do ponto de vista do estudante de jornalismo, que, como “consumidor” ou “pagante de impostos” ou ambos, foi prejudicado. Ninguém que está trabalhando na grande imprensa está lá (ou se mantém lá, o que é bem mais difícil) por causa de diploma. Velhos hábitos são difíceis de largar, mas a revolução está ocorrendo há alguns anos, a necessidade de mudança é sabida e sentida.

  9. Danilo Valeta disse:

    A idéia da educação como mercadoria é interessante. O processo de educação vai mudar tanto – provavelmente mais – do que o processo jornalístico.
    Vai render um tópico no futuro.

  10. Luiz Carlos disse:

    A ordem das coisas no mundo muda, sim. A máquina de Guttenberg é prova clara. Agora, com o advento da internet, as mudanças alcançaram uma dinâmica estrondosa a ponto de qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo difundir informação da forma como bem entender. Todavia, jornalismo é responsabilidade e cumpre uma função social de grande impacto. Esse setor precisa,sim,ser tocado por graduados e não por precários ou advogados de ‘esquinas’.

    • Danilo Valeta disse:

      Luiz, o que tira a função social do jornalista não são os precários, e sim uma mudança no próprio tecido social. O jornalista não vai ser substituído pelo pro-blogger no mesmo sentido que o monge copista não foi substituído pelo jornalista. Cada um faz coisas diferentes.
      Concordo que precisaremos ainda de gente com inteligência e informação para ajudar a criar o conteúdo de qualidade, mas não acho que o diploma de jornalista seja essencial para isso. E eu não conheço nenhuma faculdade de jornalismo que esteja preparando alunos para essa nova realidade. Se você conhece alguma, por favor, compartilhe.
      Hoje jornalistas diplomados plagiam blogueiros sem diploma, e a maior enciclopédia do mundo é organizada por um comitê de desocupados. Sabemos que o modelo dá certo. Não sabemos se precisaremos da mídia organizada da forma tradicional. Talvez sim, talvez não. Mas nada disso altera o fato de que o jornalismo vai mudar, provavelmente numa velocidade rápida demais para ser acompanhada pelo nosso modelo acadêmico engessado e datado.

  11. […] Para Murdoch, jornalismo de qualidade é aquele que concorda com as suas opiniões, e qualquer zé ruela com um diploma pode fazer o […]

  12. […] Eu escrevi basicamente a mesma coisa, mas vale a pena ler o artigo todo aqui. […]

  13. runmotherfuckerrun disse:

    porra, por um lado feliz por ter conhecido o blog e decepcionado por depois ter visto que não rola atualização há um tempo. pelo menos resta o arquivo.

    abs

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