Teatro de sombras

18/04/2011

Isso não é um post, é só uma enxurrada de pensamentos que estou escrevendo com muita pressa e nenhuma coerência.

Isso aqui: 

Anonymous international bloggers have been writing in Chinese about a “Jasmine revolution” in China, calling on Chinese people to show their discontent for local corruption by going to places that are normally crowded and walking around, not doing anything special. The Chinese authorities freaked out and blocked these sites, and most people in China have never heard of them — but because people keep turning up and walking around in the normally crowded places, the politburo is convinced that the Jasmine Revolution is in full swing.

Eu tenho acompanhado com bastante interesse as desventuras dos Anonynmous e outras manifestações políticas ou semipolíticas na rede, mas essa idéia aí, isso é o pulo do gato. Information war at its best.

A primeira coisa que me veio na cabeça foi The Invisibles, do Grant Morrison: vai desde toda aquela idéia dos memes, de coisas que de tanto existir no imaginário vazam para o mundo real, quanto a questão da revolução em um mundo onde tudo está conectado. Você é parte da revolução, sabendo ou não, querendo ou não. A revolução e a contra-revolução (e a contra-contra-revolução) são a mesma coisa.

Depois vem, obviamente, George Orwell, que o governo chinês tenta emular tão bem. A China quer reescrever o presente alterando o passado em tempo real. Funciona desde que você tenha controle total dos meios de difusão – coisa que o governo chinês efetivamente tem – e controle dos meios de produção – coisa que o governo chinês não tem e não vai ter.

Em terceiro lugar, o Shadow Play, o Teatro de Sombras chinês, uma arte tão milenar quanto o próprio país, definida pela sutileza.

Quando você tem um sistema obcecado com o monitoramento das informações, o que você faz? Insere informações erradas no sistema. Os Romanos já faziam isso. A beleza está em usar voltar a paranóia contra ela mesma, fazendo com que os mais inocentes atos tornem-se atos de revolução. Você sai pra ir até a padaria e derruba o governo sem querer.

Parece exagero, mas são BILHÕES de chineses fazendo coisas mundanas o tempo todo e uns poucos milhares de militares perdidos em um mundo que identifica a censura como um defeito e a contorna.

Não vejo saída. Resta acompanhar com cuidado pelas próximas semanas.

Eu diria “mais depois”, mas não vou ter tempo de escrever aqui pelos meses vindouros.


Um é pouco, dois é bom…

09/12/2010

Cá estou eu lendo o novo livro do Clay Shirky, que é pra mim o mais interessante pensador da comunicação no século XXI. Shirky, assim como eu, vê a coisa toda a partir do ângulo da economia – não só economia no sentido de “a comunicação é um mercado e aqui se vendem e compram coisas”, mas também no sentido de “oferta, demanda e incentivos explicam o planeta”.

O novo livro, que é muito uma continuação do primeiro livro, fala basicamente sobre economia da abundância, ou como o excesso de um determinado recurso, antes escasso, faz a civilização como a conhecemos implodir. Pois abundância nunca foi uma coisa muito, digamos, abundante – então ninguém nunca pensou em construir estruturas sociais, econômicas e políticas que levassem a abundância a sério, isso vem nos causando mais e mais problemas.

Isto é parte importante do que eu chamo de Capitalismo Punk. Um dia eu termino de escrever o artigo (atualmente com mais de 20 páginas) que explica o que é a coisa que eu chamo de Capitalismo Punk. Por enquanto, eu deixo um trecho do livro. Foi um saco escolher um trecho do livro. Minha vontade era digitar o maldito livro todo aqui.

As long as the assumed purpose of media is to allow ordinary people to consume professionally created material, the proliferation of amateur-created stuff will seem incomprehensible. What amateurs do is so, well, unprofessional – lolcats as a kind of low-grade Cartoon Network. But what if, all this time, providing professional content isn’t the only job we’ve been hiring media to do? What if we’ve also been hiring it to make us feel connected, engaged, or just less lonely? What if we always wanted to produce as well as consume, but no one offered us the opportunity? The pleasure in You can play this game too isn’t just in the making, it’s also in the sharing. The phrase “user-generated content”, the current label for creative acts by amateurs, really describes not just personal but also social acts. Lolcats aren’t just user generated, they are user-shared. The sharing, in fact, is what makes the making fun – no one would create a lolcat to keep for themselves.

The atomization of social life in the 20th century left us so far removed from participatory culture that when it came back, we needed the phrase “participatory culture” to describe it. Before the 20th century, we didn’t really have a phrase for participatory culture; in fact, it would have benn something of a tautology. A significant chunk of culture was participatory – local gatherings, events, and performances – because where else would culture come from? The simple act of creating something with others in mind and them sharing it represents, at the very least, an echo of that older model of culture, now in technological raiment. Once you accept the idea that we actually like making and sharing things, however dopey in content or poor in execution, and that making one another laugh is a different kind of activity from being made to laugh by people paid to make us laugh, then is some way the Cartoon Network is a low-grade substitute for lolcats.


Parker Lewis Can’t Lose – Can I has remake?

30/09/2010

Recentemente, comprei na gringa as duas primeiras temporadas de Parker Lewis Can’t Lose – sitcom que eu assistia na Record quando tinha 14-15 anos e da qual tinha poucas (mas ótimas) lembranças. O tipo de coisa que a gente compra sabendo que vai se decepcionar, e o fiz movido mais pela curiosidade de saber o que me chamou a atenção na época do que pela expectativa de qualidade da série em si.

E se por um lado a série realmente é decepcionante – atuações nem sempre de primeira, roteiros que terminam num Deus Ex Machina mais vezes do que qualquer um gostaria – por outro ela é absolutamente sensacional. O surrealismo, coisa que mais me marcou quando moleque, beira o desconcertante, os efeitos sonoros são impecáveis e o uso da câmera é uma das coisas mais bizarras e inovadoras que já foi feita na TV – milhões de anos a frente do que qualquer show atualmente em produção.

E – aqui a parte que interessa mais – o tema. Parker Lewis é, antes de tudo, uma série sobre jovens usando a tecnologia para escrachar com os poderes vigentes dos adultos. Parker e sua gangue se livram das enrascadas usando tecnologias de comunicação que, no período da série, basicamente se resumem a VCR e rádio de curto alcance (e relógios Swatch). Envelheceu mal, porque o mote da série envelheceu muito depressa.

Parker Lewis precisa de um remake, uma modernização. Imagine uma série que ensinasse a molecada como tapear os professores usando um celular com Bluetooth e o Windows Movie Maker. A riqueza de opções para os roteiristas, equipando os personagens com o que existe de mais moderno em tecnologias pessoais de comunicação. O bordão da série seria “Synchronize iPhones!“?

Imagine os danos à civilização que uma série dessas – esperta, carismática, high-end – faria na TV aberta. Ou melhor, no Youtube.

(Ah sim – Parker Lewis foi um dos primeiros programas de TV a ganhar apoio entusiástico na Internet – em BBSs e mailing lists, antes do advento da WWW que conhecemos hoje. Tudo a ver.)

#want

PS – Hoje liberou em umas 50 cidades do Brasil o Google Street View, serviço sensacional que eu me matei de usar nas vezes que fui para os EUA. Isso significa que você deve clicar aqui imediatamente. Aumente o som, pegue a pipoca, enjoy!


Barbra Streisand, o PT e a censura

29/09/2010

Imagino que todo mundo tenha lido aqui os excelentes textos sobre o PT e a censura que estão saindo em todo o lugar da “mídia vendida” mas, hemos de concordar, a mídia tem mais é que estar puta mesmo. O PT aberta e desavergonhadamente é a favor da censura, desde que eles quem decidam qual notícia pode e qual não pode ser censurada. Até aí, nada de novo.

O PT sabe governar tão bem quanto o PSDB sabe ser oposição, o que garantiu uma comédia de erros de fazer Shakespeare soltar gritinhos exasperados no túmulo durante os últimos oito anos. A direita tucana meio que mais ou menos sentou no poder durante anos logo após o final da ditadura, quando não antes. O PT, tadinho, uma prefeiturinha aqui, um estadozinho ali. O PSDB teve todo o tempo do mundo para cometer toda a mixórdia de erros políticos possíveis que o PT teve de resumir de forma bem mal ajambrada nos últimos oito anos. São os mesmos erros, do mesmo jeito, pq no fim do dia, é tudo farinha do mesmo saco, e as farinhas se misturam mais vezes do que a gente gostaria. Mas nem é essa a questão. A censura besta é a questão, e é uma questão velha e caduca.

Não me preocupa tanto a censura, porque a censura provavelmente está com seus dias contados. Censurar os meios tradicionais é tradicionalmente simples, mas quando você se move para os terrenos mais pantanosos da Internet, censurar torna-se contra-producente. A chiadeira que vemos hoje em dia é uma forma leve do famoso Efeito Streisand, um dos mantras da Internet – a rede reconhece a censura como uma falha e a contorna. A coisa não foi maior pq a quantidade de brasileiros conectados a Internet (além do Orkut e do MSN, claro) ainda é pequena, mas a coisa toda funciona de forma exponencial, e a hora que o bicho pegar, vai pegar de vez. Em, sei lá, duas eleições, qualquer tentativa de censura em período eleitoral ou fora dele vai resultar numa explosão de lolcats furiosos, escrachados e fofinhos.

Quem quiser apelar pra censura vai ter que fazer China style, e simplesmente botar um cadeado em toda a Internet, coisa que nós brasileiros, avessos que somos ao trabalho e à disciplina necessários para fazer este tipo de trabalho bem feito, vamos simplesmente olhar e dizer “meh”.

Eu, obviamente, não vou votar em ninguém. A maioria da molecada 16-20 anos que conheço também não. A morte da política tradicional, entretanto, fica para outro post.


A Internet matou o Cyberpunk

28/09/2010

(It’s alive! It’s alive!)

O óbvio em primeiro lugar: nunca foi o papel da Ficção Científica falar sobre o futuro.

FC fala sobre o presente. Quase um subgênero da ficcção fantástica, é uma extrapolação do presente que visa trazer para a superfície uma tendência ou problema. Júlio Verne viu a revolução industrial e escreveu uma renca de livros que diziam “olha só, nos próximos 100 anos a gente vai fazer coisas que até Deus duvida”. Orwell, Huxley e seus comparsas de Distopias presenciaram o nascimento o mundo neofacista pós WW2 e relataram o que viam, o rumo que a coisa toda estava tomando. Asimov foi um dos primeiro a levantar a mão e dizer “ei, será que não é melhor a gente pensar um pouquinho antes de fazermos lambança com essa ciência toda?”

E William Gibson & Bruce Sterling, que viveram o movimento punk e foram visionários o suficiente para pegar aquilo que Orwell perdeu em 1984: que a tecnologia de mídias – que Orwell acreditava que se tornarim a espinha dorsal de sistemas opressivos de controle – avançavam em ritmo muito acelerado para serem bem utilizados por governos, engessados e tradicionalistas.  E que as corporações eram o novo establishment, e que estas sim alcançariam o controle da população através do controle da mídia.

Aí veio a Internet e matou o Cyberpunk.

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Bibliorobôs

25/11/2009

Querido Diário,

Tipo assim, só estou passando pra dar um oi. Meio ocupado ainda, sabe?

E pra indicar essa histórias de bibliotecários sendo substituídos por robôs.

A Biblioteca Nacional do Reino Unido irá remanejar parte de seu acervo em um novo prédio, onde a responsabilidade pelo armazenamento e coleta de 7 milhões de itens passará de um bibliotecário a uma grua –aparelho para levantar pesos, como um guindaste– robotizada.

Ou eu ou o mundo está muito atrasado. Achei que as bibliotecas haviam sido substituídas por robôs alguns anos atrás.


É preciso um inglês para entender o verdadeiro punk

20/10/2009

Especialmente se o inglês em questão for Warren Ellis.

Ellis analisa as possibilidades do sistema POD, como o Magcloud, com uma ótima análise do que significa ser uma revista:

I keep peering at it and thinking, what can I do with that? Without, of course, becoming a publisher, and having to disburse money to other people, creating for myself a nightmare of inefficiency and lost time. (The most valuable resource any writer has is time.) That said: I keep wondering. What can a one-writer magazine look like? What does a magazine do? You associate “magazine” with disposability: but on the other hand, I’m a hoarder, and magazines will live on a nearby shelf or stack for years in my office. Perhaps it’s simply a modular presentation. Perhaps it’s a tract. These things need considering.

Já sua coluna semanal, Do Anything, atinge seu climax com estilo:

A place where everything connects to the same central ocean. Where we all share the same strange air. Where unthinkable complexity becomes visible, speakable, drawable. Where we can see the paths through the jungle that others have trod, and can see where they’ve crossed, and can see what foliage has not yet been trailbroken.


Social Media is the New Punk (Ladrão que Rouba Ladrão…)

14/10/2009

@Bucco roubou  um pedaço do meu texto, e agora eu me apodero de um dos links dele:

É também uma versão resumida do motivo deste blog chamar-se “Capitalismo Punk.

Aliás, vale a pena conferir isto aqui.


Precisamos de mais bebidas?

01/10/2009

Um tempinho atrás, a AT&T decidiu-se, sabe-se lá pr qual razão (mas que não são difícies de imaginar…), bloquear o acesso de seus usuários de banda larga para o site 4chan. Em termos internéticos, é uma atitude similar a pular no trilho de um trem que está chegando em alta velocidade para fazer uma baleia branca para o maquinista. Porque 4chan é um dos lares do pseudogrupo web de anarcopunk coletivamente (?) conhecido como Anonymous. Eles deram dor de cabeça para a Igreja da Cientologia, gastrite em Rupert Murdoch e, literalmente, fizeram a Associação dos Epiléticos ter um treco.

Alguém dentro da AT&T deve ter apontado lá dentro que cutucar o 4chan era pedir para alguém implodir toda a infraestrutura web dos EUA e garantia de moleques mascarados jogando tomates podres nos carros dos funcionários da empresa, e logo logo a empresa voltou atrás com um “ops, foi mail aí, gente“.

A citação famosa de John Gilmore, de que “A Rede identifica a censura como uma falha e navega ao redor dela” virou “A rede identifica a censura como uma falha e desce o cacete nela até ela ir embora”. O caso mais famoso do Brasil foi o Cicarelligate, que não deu em nada, a moça continua aí na mídia mesmo sem dar para alguém relevante nesses últimos tempos.

Esses dias, o blog Resenha em 6 fez um post falando mal dum tal boteco São Bento. Falaram mal. Nego apareceu nos comentários dizendo ser da gerência do boteco e que ia processar geral. Comentários explodiram. Gerência do bar nega ser a gerência do bar que ameaçou processar geral, mas manda uma nota judicial mesmo assim. O Resenha 6 tira o post do ar. Comentários explodem de novo. Todo mundo odeia o bar. Blogs fazem protestos.

E a história vai morrer aí.

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Os Jornais e o Cenário Improvável

28/09/2009

O blog do Clay Shirky, eterna fonte de inspiração e cópia para este blog, tem um post sobre a situação dos jornais:

Round and round this goes, with the people committed to saving newspapers demanding to know “If the old model is broken, what will work in its place?” To which the answer is: Nothing. Nothing will work. There is no general model for newspapers to replace the one the internet just broke.

With the old economics destroyed, organizational forms perfected for industrial production have to be replaced with structures optimized for digital data. It makes increasingly less sense even to talk about a publishing industry, because the core problem publishing solves — the incredible difficulty, complexity, and expense of making something available to the public — has stopped being a problem.

Eu escrevi basicamente a mesma coisa, mas vale a pena ler o artigo todo aqui.


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